Liderança feminina avança, mas ainda enfrenta desigualdade estrutural

A nomeação da coronel Glauce Anselmo Cavalli ao comando-geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, no dia 29 de abril de 2026, marca um feito histórico: pela primeira vez, em quase 200 anos, uma mulher assume a liderança da maior força policial do Brasil, com mais de 80 mil agentes sob sua responsabilidade. O avanço, no entanto, vai além do simbolismo e expõe, de forma contundente, os desafios persistentes enfrentados por mulheres em posições de alta liderança.

Mais do que a conquista visível registrada pelas câmeras, o momento revelou o peso de uma trajetória construída em meio a barreiras estruturais. A presença feminina no topo ainda é exceção, resultado de um percurso frequentemente marcado por desigualdade de oportunidades, resistência em ambientes tradicionalmente masculinos e ausência de redes de apoio consistentes.

Dados do Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho, publicado em 2025 pelo Ministério do Trabalho e Emprego, reforçam esse cenário: embora representem mais da metade da força de trabalho, as mulheres ocupam apenas entre 37% e 40% dos cargos de alta liderança nas grandes corporações. A disparidade não se limita ao acesso, mas se estende à formalização do emprego, à diferença salarial, à segregação ocupacional e à baixa representatividade em espaços de decisão. 

Nesse contexto, ascender profissionalmente não significa disputar em condições equivalentes. As regras são distintas, os critérios de validação não são neutros e os riscos são desproporcionais. Para muitas mulheres, a trajetória até o topo se configura como uma batalha desigual, frequentemente solitária, onde até mesmo a sororidade nem sempre se concretiza.

Ainda assim, cada conquista feminina carrega um impacto que ultrapassa o individual. Como destacado no discurso da própria comandante, ao alcançar posições historicamente inacessíveis, mulheres não apenas rompem barreiras pessoais, mas abrem caminhos coletivos. São avanços que, embora ainda pontuais, evidenciam a urgência de mudanças estruturais para que a presença feminina na liderança deixe de ser exceção e passe a refletir, de fato, a composição da sociedade.

Gabriela Guimarães de Souza

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